A entidade veio conhecer o bairro e analisar a possibilidade de financiar a instalação de uma miniusina de geração de energia solar solidária
Caminhando por ruas e becos do Jardim Tonato, bairro na periferia do município de Carapicuíba, na Região Metropolitana de São Paulo, os integrantes da organização japonesa Living in Peace (LIP) reconhecem que essa é uma região que eles têm em mente quando se pensa em uma comunidade em situação de vulnerabilidade social que poderiam ajudar. “Hoje eu tive melhor possibilidade de imaginar de que forma poderíamos dar algum tipo de suporte para essa população”, afirmou Akiyo Umino, que participou da visita, no dia 03 de maio de 2026.

Os parceiros japoneses também conheceram os estabelecimentos comerciais das mulheres envolvidas e que serão beneficiadas pelo projeto de energia solar solidária da Rede Paulista de Bancos Comunitários em parceria com o Instituto Federal/SP, DGRV (Confederação Alemã de Cooperativas) e Associação Comunitária Jardim Tonato. Visitaram um brechó, um salão de beleza e uma loja de roupas.

E no final, andando por becos estreitos, chegaram ao campo de futebol do Bahia, um equipamento de lazer obtido através da luta popular e do Banco Comunitário Tonato, explica Maria do Carmo Rodrigues Barbosa, presidente da Associação.

Após a visita, Akiyo Umino disse que “o objetivo da Living In Peace é proporcionar oportunidade a todas as pessoas. E uma das maneiras é pelo microfinanciamento para os menos favorecidos e em situação vulnerável. Ajudamos oferecendo crédito para que elas possam ter uma vida melhor”. A ONG japonesa também trabalha com educação financeira em comunidades ou países com população em situação de vulnerabilidade social.

Comentando sobre as conversas que teve com pessoas do bairro, afirmou que muitas delas disseram que gostariam de ter tido mais oportunidade de educação e, assim, ter melhores condições financeiras. “Mas não é tarde e pra nós, de alguma forma, também podemos proporcionar um pouco de informação e conhecimento para que elas possam melhorar de vida e, quem sabe, abrir ou ampliar os próprios negócios”.
Hamilton Rocha, coordenador-executivo da Rede Paulista de Bancos Comunitários, fez essa ponte entre o Jardim Tonato, a Living in Peace e a DGRV (Confederação Alemã de Cooperativas). “Nós fizemos essa visita porque temos um projeto em que a gente gostaria de contar com a Living in Peace para financiar a compra de placas solares para a comunidade”, conta.

Maria do Carmo tem esperança de que a LIP possa dar esse suporte financeiro para finalmente iniciar o projeto de energia solar comunitária e fortalecer a Associação e o Banco Comunitário Jardim Tonato. ”A nossa prioridade agora é a instalação da usina de energia solar para que possamos reduzir o valor da conta de luz, que está muito alta.”, disse. Atualmente dez pessoas estão engajadas no projeto. E elas já estão se mobilizando para fazer caixa. Realizaram bingo e rifa que arrecadaram dois mil reais. Agora, cada participante da comunidade fará uma contribuição mensal para o fundo Rotativo Solidário para financiar a usina.
Akiyo considera muito importante ter visto a realidade e ouvido a população, e também, saber que há outras entidades envolvidas no processo, como a DGRV (Confederação Alemã de Cooperativas), Instituto Federal e Rede Paulista de Bancos Comunitários. . Agora eles vão fazer um relatório, voltar para o Japão e tentar convencer os apoiadores da LIP a investirem no projeto de energia solar solidária do Jardim Tonato.

Maria Auxiliadora, do conselho fiscal da Rede Paulista de Bancos Comunitários, afirma que seria fundamental que esse financiamento social seja feito porque, no sistema bancário comercial, os juros são muito altos, então é necessária essa parceria. “Precisamos mostrar que somos capazes de articular e realizar. É essencial que eles vejam como é o território, quem são as pessoas, qual o projeto e tenham a possibilidade de constatar que aqui é necessário um trabalho. Sem dinheiro não tem como fazer nada, então é importante que venha esse crédito para ajudar a desenvolver os territórios mais pobres.” E ela ressalta que, para dar continuidade a essa união com os investidores japoneses, é fundamental a comunidade devolver o dinheiro emprestado pela LIP. E completa dizendo que seria importante fechar essa parceria pois abriria a possibilidade para que outras entidades de outros países possam nos conhecer e, futuramente, apoiar os projetos da Rede Paulista de Bancos Comunitários.
Fundo solidário e Bancos Comunitários
Na conversa, os investidores pediram mais detalhes sobre o funcionamento dos bancos comunitários e dos fundos solidários. Hamilton Rocha explicou que um Banco Comunitário não é um banco comercial, é uma entidade sem fins lucrativos, criado pela comunidade para resolver os próprios problemas. Serve para pagar contas, transferir dinheiro e oferecer créditos – empréstimos. Um banco comunitário também tem uma moeda social própria, que só pode circular nos estabelecimentos do bairro que aceitarem participar. A vantagem da moeda social é que, por circular somente na região, fortalece o comércio local, os consumidores locais e faz o dinheiro permanecer no bairro gerando trabalho e renda. O banco comunitário é administrado pelos próprios associados e empresta dinheiro a juros baixíssimos para quem contribui financeiramente com o fundo rotativo solidário da instituição. E esse fundo solidário é um caixa no qual os associados depositam dinheiro regularmente. Quando o valor pré-estabelecido é atingido, começa a circular em forma de empréstimo.
Proposta de Energia solar solidária
Ao final do encontro, Hamilton Rocha apresentou à LIP a proposta para a instalação de uma miniusina geradora de energia solar, listando as necessidades financeiras da Associação Tonato e o cronograma para a devolução do empréstimo. “A gente está propondo uma parceria para o projeto “Comunidades Urbanas Solares”, feito em parceria com a DGRV, que vai viabiliza um valor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a implantação de usinas solares em comunidades em situação de vulnerabilidade social.

No caso do Jardim Tonato, a comunidade tem uma dificuldade para poder fazer o pagamento da sua parte do projeto. A condição para a DGRV (e o BID) colocar 50% do valor do dinheiro para o projeto é que a comunidade coloque a outra metade. Então, nós pensamos que poderia ser interessante conseguir essa parte de empréstimo com a LIP [Living in Peace], porque isso facilitaria o projeto no Jardim Tonato.”

Hamilton afirma que este projeto é um grande desafio para a Rede Paulista de Bancos Comunitários. “É um desafio de superar as dificuldades da comunidade em acreditar que as finanças solidárias, o sistema de poupança solidária, é muito viável para fazer aquilo que a comunidade quiser. É um grande desafio porque não existe cultura de poupança solidária, de finanças solidárias. Então nós queremos incentivar que isso seja feito várias vezes, em várias comunidades, o mais rápido possível, porque as comunidades têm pressa”, finaliza.
Quem é quem
LIP – Living in Peace

Fundada em 2007, a ONG japonesa Living in Peace atua principalmente com três diretrizes: projetos para crianças, projetos para refugiados e projetos de microfinanças. Também estão trabalhando em novas áreas que contribuem para a redução da pobreza por meio da igualdade de oportunidades e combate à pobreza relacionadas às mudanças climáticas.
Atuam dentro e fora do Japão. Por meio da criação de fundos de microfinanças em países em desenvolvimento, propiciam oportunidades de acesso financeiro a pessoas que vivem em situação de pobreza.
A LIP é uma entidade certificada e reconhecida pelo Governo Metropolitano de Tóquio e as doações para a organização são dedutíveis do imposto de renda japonês.
DGRV

A DGRV – Confederação Alemã de Cooperativas é a organização do setor cooperativo que tem como objetivo desenvolver, promover e representar os interesses os membros e instituições cooperativas filiadas.
Fora da Alemanha, a entidade promove a cooperação internacional e a criação e o fortalecimento de estruturas de cooperação sustentáveis.
No Brasil a DGRV atua na promoção de cooperativas sustentáveis, principalmente no Pará e Paraná. O objetivo é apoiar comunidades desfavorecidas (especialmente pequenos agricultores), melhorando o acesso aos mercados e possibilitando a geração e o uso de energia renovável comunitária a preços acessíveis.
Rede Paulista de Bancos Comunitários

É uma entidade sem fins lucrativos que atua com o objetivo de articular, promover, formar e trocar experiências no setor de finanças solidárias, visando o fortalecimento e a expansão dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento Local. Desde o início de 2023 a Rede Paulista também têm se dedicado à energia solar solidária como forma de melhorar a formação profissional e a qualidade de vida das comunidades.
A Rede foi criada em 2020 a partir da articulação de Bancos Comunitários já existentes e de organizações sociais interessados em construir e fortalecer Bancos Comunitários, espalhados em bairros e comunidades no Estado de São Paulo.
Entre os objetivos estão:
- Formação continuada na área de educação financeira;
- Desenvolvimento e fortalecimento, com transparência, de moeda social eletrônica;
- Desenvolvimento de modelo de empreendimento cooperativo e solidário em diversos setores;
- Construção de redes e cadeias produtivas de valor agregado a partir de empreendimentos solidários estratégicos em cada comunidade.
- Fomento, criação e expansão de Bancos Comunitários no Estado;
- Incentivo a formação, articulação e troca de conhecimento nos territórios.


