A visita ao território aconteceu dia 02 de maio de 2026 e foi organizado pela Rede Paulista de Bancos Comunitários e Sociedade Alternativa da Viela da Paz
Uma antiga favela, construída sobre um poluído curso d’água que sempre alagava em dias de chuva, deu lugar a uma pequena rua urbanizada e, nos arredores, foram erguidos diversos conjuntos habitacionais para famílias que moravam pelo local. O córrego foi canalizado, mas continua com esgoto e sujeira. Apesar das melhorias, a Viela da Paz, no Butantã, zona Oeste de São Paulo, continua com problemas de habitação, crime e questões ambientais e sociais.

Foi por essa região que representantes da organização japonesa Living in Peace (LIP) fizeram uma caminhada, conversaram com moradores e comerciantes, viram os problemas de perto e conheceram o projeto “Construindo a transição energética desde e para os povos e comunidades”, no Residencial Gramado. A Living in Peace está no Brasil prospectando projetos sociais com os quais possa contribuir com financiamento a baixo custo.

A moradora Valdenice de Novais fez questão de vir conversar com o grupo de visitantes para elogiar a luta coletiva da Associação Sociedade Alternativa da Viela da Paz. Ela explicou aos japoneses que antes o local sempre tinha alagamentos e era um “bequinho” com amontoados de casas sobre casas e que ninguém acreditava que a situação poderia melhorar. Mas a organização popular conseguiu dar mais dignidade à comunidade, inclusive com a construção de habitações populares.

No comércio local visitaram, entre outros, o mercadinho do Ramon Oliveira dos Santos, que explicou aos integrantes da LIP como ele trabalha e a impossibilidade de ter preços competitivos em relação aos grandes supermercados. Dos visitantes ele ouviu e gostou de propostas como, por exemplo, os cursos de educação financeira e finanças solidárias feitos pela Rede Paulista de Bancos Comunitários. Interessou-se pelas ideias de compras coletivas com outros comerciantes do bairro para baratear os preços e a criação de uma moeda social que circulasse apenas na região, beneficiando comerciantes e moradores locais.

Masafumi Saito, um dos responsável pelos projetos de Microfinanças da LIP, diz que essa é a primeira vez que a LIP visita Comunidades no Brasil, então primeiro vieram conhecer a realidade, as necessidades e os projetos. O objetivo da Living in Peace é dar oportunidades a todos, realizar educação financeira às famílias e oferecer microfinanciamentos. “Não é doação, mas crédito. Emprestar dinheiro a baixo custo. Estamos colhendo informações que vamos repassar aos investidores japoneses e tentar convencê-los a apoiar os projetos brasileiros”, explicou.
Ele destaca que os projetos que pleitearem o financiamento precisam beneficiar o coletivo (e não individual) e afirma que o crédito oferecido pela LIP não é um negócio pra ganhar dinheiro porque não tem fins lucrativos.

Os japoneses também visitaram um dos apartamentos conquistados através da mobilização social dos movimentos populares e comentaram sobre o tamanho das unidades (42m²) que é maior que boa parte dos apartamentos no Japão.

E conheceram a usina coletiva de geração de energia solar do Residencial Gramado, inaugurada em julho de 2025. O sistema custou R$ 22 mil e beneficia 108 famílias. O objetivo é reduzir o custo da energia elétrica das áreas comuns do condomínio e promover renda por meio da de módulos fotovoltaicos. Hoje o sistema proporciona redução de 40% a 50% na conta de luz. Para realizar a implantação do sistema, a comunidade da Viela da Paz participou dos cursos sobre energia solar e finanças solidárias promovidos pela Rede Paulista com o apoio do Fórum por Mudanças Climáticas e Justiça Climática, Rede TEP (Transição Energética Justa e Popular) e CERSA (Comitê de Energia Renovável do Semiárido) e Instituto Federal. Os equipamentos foram doados pela Misereor, com o compromisso de que, com a economia na conta da energia, os moradores constituam um fundo para ampliação do sistema solar. A Misereor é uma organização de bispos da Igreja Católica da Alemanha para a cooperação ao desenvolvimento e combate à pobreza na África, Ásia e América Latina.
A usina solar integra o Projeto Energia Solar Solidária da Rede Paulista de Bancos Comunitários em parceria com a Associação Sociedade Alternativa.

Adilsom Ferreira, diretor-executivo da Associação Sociedade Alternativa da Viela da Paz e diretor-financeiro da Rede Paulista, afirma que a visita foi importante e frutífera. Ele explica que a comunidade tem várias ideias em mente, como ampliar a miniusina no conjunto habitacional Gramado, expandir as cooperativas de energia solar para outros prédios e viabilizar o funcionamento do banco comunitário. Também citou a necessidade de criar uma cooperativa para a reciclagem de lixo.
Living in Peace
Fundada em 2007, a ONG japonesa Living in Peace atua principalmente com três diretrizes: projetos para crianças, projetos para refugiados e projetos de microfinanças. Também estão trabalhando em novas áreas que contribuem para a redução da pobreza por meio da igualdade de oportunidades e combate à pobreza relacionadas às mudanças climáticas.
Atuam dentro e fora do Japão. Por meio da criação de fundos de microfinanças em países em desenvolvimento, propiciam oportunidades de acesso financeiro a pessoas que vivem em situação de pobreza.
A LIP é uma entidade certificada e reconhecida pelo Governo Metropolitano de Tóquio e as doações para a organização são dedutíveis do imposto de renda japonês.


