Criada há nove anos, inicialmente com menos de dez pessoas, hoje participam 44 famílias, empreendimentos e coletivos parceiros
Artesãos, artistas de diferentes setores, educadores, quilombolas, indígenas, caiçaras e agricultores familiares de Paraty (RJ) têm na Somar Associação de Economia Solidária uma entidade que une pessoas, cria oportunidades, trabalho, gera inclusão sociocultural, desenvolvimento sustentável e consciência ambiental. E também discute e pratica uma nova forma de organização de trabalho e renda – a economia solidária. O grupo organiza e participa de feiras, exposições e oficinas, promove o empoderamento de mulheres e o uso de materiais ecológicos, fortalecendo a economia solidária e gerando oportunidades de comércio justo para produtores que costumam ter menos espaço no mercado convencional.

“É um coletivo de economia solidária. Fazemos feiras, que é nossa principal fonte de renda, damos oficinas gratuitas nos eventos que participamos, de ações sociais na comunidade e parcerias com movimentos de outras cidades”, explica a artesã Maria Victoria Velazquez Prassel. Ela comenta a importância de trabalhar coletivamente: “Sozinhos não conseguimos esse nível de organização, Fazer essas feiras bonitas, compras coletivas, apoio quando alguém está passando por necessidade, é uma grande rede.”
Na pandemia de covid o Coletivo Somar foi importante para a cidade. Como o turismo caiu drasticamente (não apenas em Paraty, mas em todo o mundo) muitos perderam trabalho e renda. Mas o Somar “conseguiu ajudar pessoas, devido aos contatos e pessoas que todos conhecemos, foi possível articular cestas básicas e ajudar a quem mais precisou”, afirma a artesã.

O coletivo cresceu bastante desde a pandemia, “mais pessoas entraram com determinação, vontade e necessidade de trabalhar. Os bens materiais do coletivo aumentaram muito, fizemos mobiliário padrão, adquirimos mais tendas, palco, equipamentos de som e etc, com isso precisamos nos formalizar para termos un cnpj, poder participar de editais ou quem sabe, no futuro, poder receber apoios e doações”, orgulha-se Victoria.
Um bate-papo sobre Economia Solidária
Em abril a Somar realizou seminário sobre Economia Solidária, que teve participação da Rede Paulista de Bancos Comunitários. Hamilton Rocha, coordenador-executivo da Rede, explicou aos convidados que “a solidariedade é como uma engrenagem, que não funciona se os “dentes da engrenagem” não agirem de forma simultânea e coordenada. Se falhar um dente a engrenagem vai funcionar com defeito até quebrar e parar. A economia solidária é uma troca, não uma dádiva unidirecional. O problema da economia solidária é se separar do empreendedorismo individual que aspira a ser “rico” através do lucro egoísta, sem nunca poder sê-lo. É preciso repensar nossas práticas e nossas relações se queremos praticar realmente a economia solidária, praticando de verdade a solidariedade, a autogestão coletiva, a transparência e a democracia que, neste caso, quer dizer participação e encaminhamentos das ações coletivas decididas pela maioria e não que cada um faça “o que quiser” sem olhar pro lado.”

Érica Mota, que trabalha com sebo (compra e venda de livros usados), diz que o bate-papo com o Hamilton “foi bom pra nos lembrarmos que precisamos de formação. Foi algo muito rápido pra ter tido uma resposta conjuntural…Só com formações constantes, estudos, teremos mais firmeza.” E a Victoria afirma que o seminário foi importante porque “nos trouxe de volta a relembrar várias questões sobre a economia solidária, as engrenagens como coletivo. Foi bom ter essa grande roda sendo guiada e podendo ouvir a todos.”
Como está no próprio nome, a Somar Associação de Economia Solidária estimula uma forma alternativa ao capitalismo, que é a economia solidária. Érica explica que “o Coletivo Somar é espaço de fonte de renda para muitas famílias, mas acho que tem uma função um pouco maior, ainda não vista por todos com clareza, que é se entender como potência social e econômica no enfrentamento ao capital”.

Para ela o próximo desafio é “entender mais sobre economia solidária; ter clareza dos combinados; entender o coletivo como um compromisso que vai além de si; se organizar com estudos e protocolos, para vencer as demandas individuais que atropelam o coletivo.” Neste sentido, a Rede Paulista de Bancos Comunitários é importante parceiro para “estimular a entender e aplicar o fundo rotativo. Além disso, facilitar a compreensão de cada um com o compromisso com o Coletivo.”
Victoria concorda. É preciso “fazer mais de um curso de formação de economia solidária por ano, ter cursos que ajudem os membros a crescer como equipe e nas próprias artes.” Também são desafios da Associação a formalização dos empreendedores e empreendimentos, abrir novas vagas no Coletivo (pois temos uma grande fila de espera) e criar uma plataforma de vendas online”.
Ocupa Paratii

Um dos grandes eventos culturais de Paraty é realizado pela Somar: o “Ocupa Paratii”. É uma grande feira multicultural e de economia solidária que acontece paralelamente à FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, em feriados e determinados finais de semana. Na Ocupa são vendidos produtos essencialmente artesanais e caseiros, culinária, com troca de saberes, socialização das experiências de produção, atividades recreativas, música e fortalecimento de outros coletivos.


