Moeda social Chiemgauer perde valor se for guardada em vez de usada e evitou emissões de poluição equivalentes a cerca de 2 mil carros
Para ajudar o pequeno comércio local a competir com shopping centers e grandes redes da região de Chiemgau, na Baviera – Alemanha, um experimento escolar de uma sala de aula do ensino médio, feito em 2003, criou a moeda social “Chiemgauer”. Para manter o dinheiro circulando apenas na região, os estudantes “imprimiram e colocaram-na em circulação. Pouco a pouco, moradores passaram a usá-la e lojas começaram a aceitá-la”, conta reportagem da Deutsche Welle.

Cada Chiemgauer vale um Euro e a moeda é usada por mais de quatro mil pessoas e 300 empresas. Por ano, cerca de cinco milhões de Chiemgauers são gastos localmente, um volume equivalente a entre 10% e 15% dos clientes dos estabelecimentos comerciais da região. Na Alemanha não pode existir outro dinheiro que não seja o Euro, mas como a moeda social fica restrita a Chiengau, é tolerada pelo Banco Central Alemão. Mas quem quer usar o dinheiro precisa se registrar na Associação Chiemgauer. No entanto, menos de 1% da população da região participa do sistema. Até porque, se ele crescesse muito, o BC poderia intervir para regulá-lo.
Pessoas físicas não podem trocar o Chiemgauer por Euro. Apenas as empresas podem fazê-lo, mas precisam pagar uma taxa de 5%. Esse valor financia a operação da moeda e apoia organizações locais sem fins lucrativos.

Moeda social com impacto ambiental
“As moedas incentivam o consumo local, o que encurta as cadeias de suprimento, já que os comerciantes compram produtos produzidos localmente”, afirma Ester Barinaga, pesquisadora de moedas complementares na Universidade de Lund, na Suécia. Segundo o MIT e a Agência Internacional de Energia, o transporte de cargas responde por 8% das emissões globais de gases de efeito estufa.
E aqui entra uma inovação do Chiemgauer – a ação ambiental. Moradores que fizerem escolhas ambientalmente responsáveis ganham bônus que variam de um a 200 Chiemgauers. A reportagem da DW cita como exemplo consertar jeans em vez de comprar novos (10 Chiemgauers) , usar serviços de compartilhamento de carros (50 Chiemgauers) ou isolar casas com materiais naturais (200 Chiemgauers).

Quem instala painéis solares pode receber 100 Chiemgauers. Além do bônus financeiro que recebeu o cidadão, “em 20 anos, esse sistema de energia vai economizar 11 toneladas de dióxido de carbono (CO2),” explica o professor de economia, Christian Gelleri, que coordenou a criação da moeda social com o estudantes. Para viabilizar esses bônus, moradores e empresas locais contribuem para um fundo social com o objetivo de compensar suas próprias emissões de poluentes. Para cada tonelada de carbono compensada pelo fundo, nove toneladas são economizadas por meio dos comportamentos sustentáveis que ele incentiva, explica a reportagem.

Mecanismo para fazer a moeda circular
O Chiemgauer físico, de papel, tem data de validade. A cada seis meses o usuário que está com a nota precisa comprar um selo para colar no dinheiro e custa cerca 2% do valor da nota. Se você usar a nota vencida sem o selo, o comerciante só é obrigado a aceitá-la pelo valor depreciado (98% do valor impresso na face). E o papel-dinheiro vence definitivamente em três anos, perdendo totalmente o valor. Isso faz com que a moeda circule rapidamente porque ninguém quer ficar com a batata quente na mão e ter prejuízo se a validade vencer com você. Mas geralmente o próprio banco comunitário recolhe o dinheiro que está próximo do vencimento pra que ninguém saia perdendo. Então a regra é clara: recebeu a moeda física, gaste o quanto antes no comércio local. Dinheiro parado ali é prejuízo na certa!
Esse mecanismo também é um estímulo para a transição para o e-Chiemgauer (a versão digital em cartão), onde a perda de valor é calculada de forma digital e diária (cerca de 0,016% ao dia), eliminando o problema de ter que colar selos ou lidar com papel vencido.



