O modelo demonstra que é possível organizar a economia de forma democrática, colocando as necessidades das pessoas no centro das decisões — e não apenas a busca por lucro.
Um estudo do Instituto Tricontinental mostra como o sistema de cooperativas de Kerala, no sul da Índia, se consolidou como um dos principais pilares do desenvolvimento econômico e social do estado. No centro desse modelo estão os bancos comunitários e cooperativas de crédito, responsáveis por levar serviços financeiros a milhões de pessoas historicamente excluídas do sistema bancário tradicional.
Diferentemente dos bancos privados, essas instituições são controladas pelos próprios moradores — agricultores, trabalhadores e pequenos comerciantes — e operam com foco no bem-estar coletivo, não no lucro. Em áreas rurais, onde bancos comerciais muitas vezes não chegam, os bancos comunitários se tornaram a principal fonte de crédito, poupança e financiamento produtivo.

O estudo destaca que esse sistema ajudou a reduzir a dependência de agiotas, prática comum no passado e marcada por juros abusivos. Com empréstimos a taxas mais baixas e condições mais justas, agricultores e famílias de baixa renda passaram a investir em produção agrícola, pequenos negócios e melhoria das condições de vida.
A base do sistema financeiro cooperativo em Kerala são as Sociedades de Crédito Agrícola Primárias (PACS), presentes em vilas e bairros e profundamente integradas à vida local. Essas cooperativas estão ligadas a uma estrutura mais ampla, coordenada pelo Kerala Bank, banco cooperativo estadual que fortalece e dá estabilidade ao sistema como um todo.
Entre os exemplos citados no estudo está o Mannarkkad Rural Service Cooperative Bank, que cresceu ao longo das últimas décadas oferecendo microcrédito, programas de poupança e apoio financeiro a famílias endividadas. A atuação do banco ajudou a retirar milhares de pessoas da dependência de agiotas e a fortalecer a economia local.

Outro caso é o Palliyakkal Service Cooperative Bank, que ampliou sua atuação para além dos serviços financeiros. A cooperativa apoiou projetos de agricultura coletiva, criação de animais e produção de alimentos, articulando crédito com organização comunitária e geração de renda.
O estudo também destaca cooperativas produtivas que funcionam de forma integrada ao sistema financeiro cooperativo. A Cooperativa de Chá Sahya, por exemplo, garantiu preços mais justos aos pequenos produtores e conseguiu resistir a crises recentes, como enchentes e a pandemia. Já a Uralungal Labour Contract Cooperative Society (ULCCS), cooperativa de construção civil, compete diretamente com grandes empresas privadas, oferecendo bons salários e condições de trabalho aos seus membros.
Segundo o Instituto Tricontinental, a experiência de Kerala mostra que os bancos comunitários e as cooperativas podem ser ferramentas eficazes de inclusão financeira, desenvolvimento local e redução das desigualdades. O modelo demonstra que é possível organizar a economia de forma democrática, colocando as necessidades das pessoas no centro das decisões — e não apenas a busca por lucro.
Você pode ler o artigo completo no site da Tricontinental
https://thetricontinental.org/pt-pt/estudo-kerala-cooperativas/


