Há cinco anos a Rede Paulista de Bancos Comunitários oferece esse curso online, que desta vez teve carga horária de 48h, duração de seis meses e começou em 08/01/2025.

O que é um Banco Comunitário? Quais Vantagens? Para quem serve? Como Abrir um? Atrás das respostas, 20 alunos de diferentes regiões se inscreveram no 8º. Curso de Formação Sobre Bancos Comunitários.
A atividade aconteceu num momento especial, com a Rede Paulista de Bancos Comunitários comemorando cinco anos de existência em sua luta para articular e organizar pessoas em torno das finanças solidarias. E também é uma conquista, já que é um curso autossustentado pois não recebe nenhum tipo de ajuda, a não ser seus colaboradores.
Além disso, importante destacar que avança no Congresso Nacional o projeto da lei dos Bancos Comunitários e moedas sociais – uma tentativa do movimento dos Bancos Comunitários para que sejam reconhecidos pelo Banco Central e pelo sistema financeiro como instrumento social para fortalecer a economia nas comunidades em situação de vulnerabilidade social e gerar trabalho e renda de qualidade.

Afinal, quais as vantagens de se montar um banco comunitário?
A principal vantagem de um Banco Comunitário é que ele te liberta das dívidas e dos juros absurdos, comenta Hamilton Rocha, da coordenação da Rede Paulista de Bancos Comunitários. Mas para explicar melhor o que é um banco comunitário e pra que serve, é preciso lembrar que no Brasil a situação é grave, com 80% das famílias endividadas. E as mais pobres não conseguem nem pagar a água, a luz ou a conta do celular.
Por um lado, os salários estão muito baixos. O Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) afirma que em abril de 2026 o salário mínimo ideal para cobrir despesas básicas de uma família de quatro pessoas (alimentação, moradia, saúde, etc.) deveria ser de R$7.426,00, mas a situação está bem longe disso. Seis de cada 10 trabalhadores recebem até R$3.000, ou seja, a metade do que deveria ganhar para viver dignamente. As mulheres, na maioria dos casos mães que sustentam sozinhas a família, recebem ainda menos – R$2.800. Já as mulheres negras (que representam 3 de cada 10 brasileiros) tem as piores rendas – média de R$2.105. Com baixos rendimentos as famílias acabam se endividando.

Outro problema é a taxa de juros, conhecida como “Taxa SELIC”, que está em 14,75% – simplesmente a segunda maior do mundo. “Mas quando a dona Benedita vai pedir emprestado em um banco convencional ela vai pagar 30% de juros ao mês!!! É um roubo. E se ela se desespera porque não consegue pegar empréstimo no banco e pede dinheiro para um agiota no bairro, além dos 30% ela é ameaçada de morte se não pagar. É uma situação terrível!!, lamenta Hamilton Rocha.
Aqui entram os bancos comunitários. “Nós propomos que, com um valor bem pequeno, que pode ser R$5, R$10 ou R$25, um grupo de pessoas, que não precisa ser muito grande, se junte e forme um fundo financeiro. Todos os meses cada pessoas coloque a mesma quantia. No final de seis meses ou um ano este “fundo” tem uma boa quantidade de dinheiro e já pode ser usado para empréstimo. Não dá pra comprar um carro e nem uma casa, mas ajuda a sair do apuro, comprar uma mistura, pagar uma dívida pendente e sair da agiotagem. Quando a pessoa deixa de ter dívida a vida muda, a saúde melhora, começa a dormir melhor, tudo muda”, garante Hamilton. Essa é a proposta: como “o dinheiro não cai do céu” e “não dá em árvore”, então ele precisa vir de nós mesmos, da nossa educação financeira, da nossa consciência social.
A outra vantagem é que o Banco Comunitário é como um BNDES da quebrada, porque ele serve para incentivar os moradores a construírem empreendimentos próprios – sem patrão. Para uma mulher isso quer dizer: nenhum assédio moral ou sexual e maior independência em relação ao homem. Ela mesma passa a controlar as próprias finanças, sem dependência de ninguém. Isso é transformador para a vida de uma mulher. Com o empréstimo do Banco Comunitário é possível comprar um equipamento pra começar um negócio. Uma máquina de costura, um forno, um computador. Serve como incentivador econômico dentro da comunidade e isso vai fazer girar a economia.
“E por falar em girar a economia, precisamos falar de outra vantagem que são as moedas sociais. São moedas próprias que circulam exclusivamente na região. É como se fosse uma “quermesse dentro do bairro porque você só pode usar aquelas “fichinhas” para gastar no comércio local. E o que ocorre quando você faz isso? O dinheiro fica na comunidade, gera mais renda e fortalece o comércio local. Gera mais confiança para investir no bairro gerando inclusive mais emprego”, explica o dirigente.
É fácil montar um banco Comunitários?
Não é nada fácil. Por quê? Porque pra montar um Banco Comunitário é preciso confiar uns nos outros. “E hoje em dia as pessoas tem mais medo e ódio uns dos outros do que confiança. Então, sinceramente, é difícil. Mas é impossível? Não, de jeito nenhum. As notícias estão aí, todos os dias, dizendo que individualmente nós não vamos a lugar nenhum, precisamos nos unir, superar as diferenças, as desconfianças, criar tecnologias sociais que incentivem a confiança mútua. E daí todos ganharemos”, explica.
E o que são essas “tecnologias sociais”. São articulações, regras, normas de convivência e procedimentos que, ao serem aplicadas, produzem um efeito, um resultado. Quais? “Se você usa moeda social, o dinheiro gira onde você está, ele não vai para fora do bairro. As coisas são compradas e vendidas no bairro. Isso pode baratear custos de produtos e serviços, pode gerar novos empregos e melhorar a vida no bairro”.
Quem usa o Fundo (de Crédito) Rotativo Solidário tem muitas vantagens porque os juros são muito menores, não se exige avalista ou grandes burocracias e todo mundo ajuda e é ajudado.

Além disso o Banco Comunitário pode oferecer outros serviços bancários comuns, como pagamento de contas e boletos, transferências e outros serviços que um banco convencional.
Hasmilton destaca: “Ah – e muito importante: este banco não corre o perigo de ser um “Banco Master” ou estes bancos digitais (fintechs) que desaparecem de um dia para o outro. Ele é um banco da comunidade, feito e controlado pela comunidade, para a comunidade. São os moradores que participam, são os donos e ao mesmo tempo clientes do banco. Uma transformação nas formas de se produzir, comercializar, financiar e viver em comunidade”.
Graças ao cursos, a Rede Paulista ajudou a montar e fortalecer grupos que iniciaram a construção dos próprios bancos comunitários, como é o caso da Cidade Tiradentes (SP/SP) e do Jardim São Camilo, em Jundiaí (SP). Os alunos começaram a discutir a necessidade de se formar um fundo rotativo e, futuramente, um Banco Comunitário. Moradores de diversos outros bairro também saíram com a vontade de levar o projeto às suas comunidades.
A semente está plantada.


