No encontro a Rede apresentou os projetos de banco comunitário, finanças solidárias e energia solar solidária
Na região do Parque do Estado, na zonal sul de São Paulo, mais de 1500 residências foram construídas através da luta popular. Desde 1980 a Associação dos Movimentos de Moradia da Região Sudeste organiza a população pelo direito à moradia digna. A Rede Paulista de Bancos Comunitários veio apresentar à entidade o que pode ser mais um ganho: a criação de comunidades urbanas solares, com a instalação de painéis fotovoltaicos coletivos, que podem incrementar a qualidade de vida dos moradores.

“Viemos trocar experiências e começar uma conversa sobre a possibilidade de implantação de painéis solares tanto nos condomínios, quanto em outras casas que existem na região e estão ligados ao movimento de moradia”, explica Hamilton Rocha, da coordenação executiva da Rede Paulista.
A coordenadora-geral do Movimento de Moradia da Região Sudeste, Graça Xavier, afirma que há tempos o grupo debate os impactos das mudanças climáticas e essa reunião foi para entender e compreender esse trabalho da Rede Paulista. “O custo de energia é muito caro para as famílias, né? Tem famílias que às vezes não conseguem pagar a conta de luz, ou paga a conta de luz ou compra comida. Então, se a gente tem uma forma de conseguir um projeto que a conta de luz vai baratear, é importante não só implementar a energia solar, mas também que essas famílias comecem a entender e compreender a importância da energia na vida dessas pessoas.”

O objetivo proposto pelos Bancos Comunitários é que os moradores atuem coletivamente para adquirir e instalar as placas solares. Neste sentido, Bruna Lopes Bispo, coordenadora de projetos do Instituto Polis, que estava no encontro, concorda que a energia solar seja de qualidade, justa e inclusiva. “E quando a gente fala disso tudo, a gente tá falando de comunidades, né? Quando a gente fala de comunidades, não tem como a gente não falar do coletivo e trazer o coletivo pra pauta (…) pra gente é muito mais do que instalar placas solares, a gente tem um viés muito de transformar.”

Na região o Movimento já construiu aproximadamente 1.500 unidades habitacionais, 60 na área central, 120 no Cambuci e em breve vai entregar 160 apartamentos, também na zona Sul. “Então, juntando tudo isso, vai para quase 2.000 unidades habitacionais, ou seja, mais de 2.000 famílias sendo beneficiadas direto e através das parcerias com os movimentos populares”, contabiliza Graça Xavier. Essa grande quantidade de imóveis e mais a capacidade de mobilização se encaixam com os objetivos da Rede. “ A gente observou que esses condomínios, essas casas, podem gerar muita energia solar. E o bom disso é que eles estão acostumados com um trabalho de financiamento coletivo, porque eles fizeram isso tanto para a questão das moradias que eles moram hoje, como para a manutenção de condomínios. Existe uma consciência de que a luta coletiva pode trazer benefício. Então, dentro do nosso projeto, essa ideia de trabalho coletivo também para a energia solar é uma grande oportunidade para beneficiar muitas famílias aqui na região”, diz Hamilton Rocha.

Quando se olha para os telhados, geralmente as placas fotovoltaicas estão instaladas em uma casa ou empresa, para benefício individual. A ideia da Rede Paulista é que os equipamentos sejam adquiridos coletivamente para que os benefícios sejam compartilhados por mais famílias. Graça comenta que gostou da possibilidade de “colocar as placas solares em um lugar, mas que o benefício dessa energia pode ser convertida para outras casas, para outras famílias. Esse trabalho mais coletivo, é justamente o que vai fazer total diferença no trabalho que a gente já desenvolve, porque a gente nunca pensa nada em individual e sim em coletivo, desde o acesso à energia, o acesso à água, o acesso às políticas públicas. Então, isso só vem a agregar aquilo que a gente já está fazendo na comunidade.”
O fato de os moradores da região já estarem organizados é um facilitador para o projeto, explica Hamilton. “Esse movimento de moradia é antigo e as lideranças são experientes em trabalhar coletivamente. Isso é um passo, acelera o processo para a gente poder organizar a implantação da nossa política de energia solar solidária.”

Próximos passos
Após essa encontro, o Movimento de Moradia pretende reunir os moradores para explicar a ideia das finanças solidárias e da energia solar comunitária e como elas podem beneficiar a comunidade. “Não vejo a hora de dialogar com as famílias, conseguir explicar para elas passo a passo, que a energia solar, as placas solares vão beneficiar não só uma família, mas a própria comunidade.”

A Rede Paulista pretende fazer um seminário com os moradores para explicar melhor a ideia e, quem sabe, iniciar um projeto de implantação do primeiro grupo de painéis solares na própria sede da Associação ou em algum condomínio escolhido. O objetivo é mostrar para os demais que o projeto é viável e acessível economicamente. “O potencial para sair um empreendimento é grande, primeiro por simpatia das lideranças pelo projeto e, segundo, porque as pessoas já aqui pagam conta de luz. Então, em vez de pagar para a companhia elétrica, elas vão pagar para o seu próprio projeto de energia. Então, isso facilita bastante o trabalho”, diz Hamilton.
Associação dos Movimentos de Moradia da Região Sudeste

A Associação dos Movimentos de Moradia da Região Sudeste é uma entidade que articula 10 movimentos de moradia na região Sudeste, compreendendo os bairros, Jardim Clímax, Pq. Bristol, Água Funda, Vila Mariana, Vila Livieiro, Ipiranga, Jabaquara, Vila Arapuá, Jardim Maristela e Vila Moraes.
A entidade nasceu com as articulações da Pastoral de Favelas da Região Episcopal Ipiranga, a partir de 1980, com o objetivo de organizar, mobilizar os movimentos de moradia, lutar pelo direito à moradia, por reforma urbana e autogestão e, assim, resgatar a esperança do povo rumo a uma sociedade igualitária e sem exclusão social.
O Movimento defende a autogestão, o direito à moradia e à cidade e a participação popular nas políticas públicas. As reivindicações e propostas são dirigidas ao poder público nas três esferas de governo – municipal, estadual e federal. Ao longo da existência, o Movimento enfrentou e trabalhou com diferentes gestões, sempre buscando a negociação e a ações propositivas, sem deixar de lado as ferramentas de luta e pressão do movimento popular.
Rede Paulista de Bancos Comunitários

É uma entidade sem fins lucrativos que atua com o objetivo de articular, promover, formar e trocar experiências no setor de finanças solidárias, visando o fortalecimento e a expansão dos Bancos Comunitários de Desenvolvimento Local. Desde o início de 2023 a Rede Paulista também têm se dedicado à energia solar solidária como forma de melhorar a formação profissional e a qualidade de vida das comunidades.
A Rede foi criada em 2020 a partir da articulação de Bancos Comunitários já existentes e de organizações sociais interessados em construir e fortalecer Bancos Comunitários, espalhados em bairros e comunidades no Estado de São Paulo.
Entre os objetivos estão:
- Formação continuada na área de educação financeira;
- Desenvolvimento e fortalecimento, com transparência, de moeda social eletrônica;
- Desenvolvimento de modelo de empreendimento cooperativo e solidário em diversos setores;
- Construção de redes e cadeias produtivas de valor agregado a partir de empreendimentos solidários estratégicos em cada comunidade.
- Fomento, criação e expansão de Bancos Comunitários no Estado;
- Incentivo a formação, articulação e troca de conhecimento nos territórios.

