Bancos comunitários e fundos solidários rotativos são alternativas aos bancos comerciais
Mais de 80% das famílias brasileiras estão endividadas, sendo que 29,6% estão em atraso e 12,6% não terão condições de pagar a dívida. A conclusão é da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), de fevereiro de 2026, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo.

O cartão de crédito concentra 85,4% das dívidas, seguidas de Carnês: 15,9%, Crédito pessoal: 12,2%, Financiamento de casa: 9,6%, Financiamento de carro: 8,7%, Crédito consignado: 6%, cheque especial: 3,4%, Outras dívidas: 2,5% e cheque pré-datado: 0,3%. Para 19,5% dos brasileiros, mais da metade dos ganhos mensais é gasta com o pagamento das dívidas, sobrando menos de 50% para as demais despesas básicas.
De acordo com a entidade, o “avanço da inadimplência reforça cautela com o uso do mercado de crédito.” O relatório destaca que, “ dessa vez, o aumento do endividamento veio acompanhado por uma elevação da inadimplência, criando um ciclo perigoso devido aos juros altos que incrementam essa dívida.”
Segundo o levantamento da Serasa Experian, divulgado em 24 de março de 2026, a dívida média por CPF é de R$ 6.598,13, o que inclui o valor emprestado acrescido de juros, multas e correções monetárias acumulados desde o vencimento da conta original.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que 101 milhões de brasileiros têm cartão de crédito e as pessoas estão pegando cotidianamente as linhas de crédito bancárias, que deveriam ser usadas somente em momentos emergenciais. Segundo o BC, a taxa de juros do cartão de crédito rotativo somou 425% ao ano em janeiro de 2026. É a modalidade de empréstimo mais cara do mercado financeiro no país.
Galípolo disse que os trabalhadores devem buscar linhas de crédito mais compatíveis com renda, evitando o crédito rotativo como complemento de renda, já que essa linha de crédito tem taxas de juros punitivas.
Alternativa ao juros abusivos
Os bancos comunitários e os fundos rotativos solidários são alternativas para pequenos empréstimos porque que não esfolam o trabalhador. De acordo com Hamilton Rocha, da coordenação da Rede Paulista de Bancos Comunitários, os juros dos bancos comerciais são o açoite dos donos do poder do século 21. “O que o sistema de crédito no Brasil faz é aprofundar a relação de dependência das pessoas ao sistema de crédito.” Ele ressalta que grande parte do ganho do trabalhador é usado para pagar juros bancários, seja numa pequena compra, seja numa grande ou na rolagem das dívidas. “É a agiotagem institucionalizada”, diz. De fato, a PEIC mostra que para 19,5% dos brasileiros, mais da metade dos ganhos mensais é gasta com o pagamento das dívidas, sobrando menos de 50% para as demais despesas básicas. “A maior parte das famílias (56,1%) continua tendo entre 11% e 50% da renda comprometida. Dessa forma, o percentual médio de comprometimento da renda com dívidas ficou em 29,7% em fevereiro”, concluiu a pesquisa.

“Por isso lutamos para criar finanças que sejam coletivas e solidárias, que o dinheiro não fuja pelo bueiro, mas que saia das mãos do trabalhador e volte pra ele e outros trabalhadores”. E como fazer isso?, questiona. A Rede Paulista propõe um “sistema de crédito organizado pela comunidade, no qual cada pessoa coloca uma parte pequenina, digamos de R$25, R$50 por mês, e construa um fundo coletivo de crédito. Se juntar esse dinheiro individual e somar com o outro pouquinho de 20, 50, 100 ou 1.000 pessoas, teremos uma força financeira que permite que não precisemos recorrer aos agiotas e aos grandes bancos.”
Os juros dos Bancos Comunitários são irrisórios se comparados a outras instituições financeiras. “Enquanto um Banco tradicional chega a cobrar 33%, um Banco Comunitário cobra, no máximo, 3%. Imagine a economia que o trabalhador faz”.
A pesquisa mostra que quase 13% dos endividados não terão condições de pagar pelo empréstimo, então como garantir que não haja inadimplência nos bancos comunitários?
Hamilton afirma que a inadimplência no sistema de crédito solidário ou comunitário é baixíssima, em torno de 2%. “Por que tão baixo? Porque o trabalhador sabe que o dinheiro que está solicitando é seu, é da comunidade e ele não quer passar vergonha de não devolver. Além disso, os Banco Comunitários fazem formação de educação financeira em que a pessoa aprende a cuidar melhor do dinheiro, prioridades, disciplina.”

Além desse sistema de empréstimo, os bancos comunitários têm sua moeda social própria, que pode ser em dinheiro físico ou de forma digital, através de aplicativo de celular, o e-dinheiro. Funciona como numa quermesse, numa festa junina, por exemplo. Você vai na barraca do caixa e troca o Real pelo equivalente em fichas pra gastar no que quiser, em outras barracas, mas só dá pra usar lá dentro porque não vale nada em outro lugar. “A moeda social é isso: o dinheiro roda no bairro, não é aceito fora e portanto, circula e fica só lá mesmo. Isso aumenta o dinheiro na comunidade, gerando economia, mais renda e mais trabalho no próprio local. Os Bancos Comunitários são o futuro da sociedade. O Brasil está avançando nessa direção, mas precisamos difundir mais essa ideia”, finaliza.


